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Construir a partir da alma das cidades. As propostas de Luís XIV em Espanha

23/07/2026

Visita de Leon XIV a la Sagrada Familia de Barcelona

Mais do que uma viagem pela Espanha, a viagem de Leão XIV traça um projeto de renovação espiritual e social baseado na dignidade humana, no diálogo e na esperança.

A viagem apostólica de Leão XIV à Espanha, em junho de 2026, não foi apenas um evento diplomático ou litúrgico, mas sim uma proposta de renovação profunda para a Igreja e a sociedade civil. 

Sob o lema «Levantem o olhar!», apelou aos educadores para que fossem «novos fios para tecer novas redes» na arte do diálogo social, que implica encontro e escuta, diálogo e respeito. Com as palavras de Bento XVI, salientou que «a fé é amor e, por isso, gera poesia e música. A fé é alegria e, por isso, gera beleza» (Catequese (21 de maio de 2008). E León XIV questionou-se se a Europa poderia ser ela própria sem a marca da fé. 

Precisamente no seu discurso de saudação às autoridades, Leão XIV revela à Europa, graças à sua grande história de mediação entre línguas, religiões e conhecimentos, de união entre a ação histórica e a lucidez da razão moral, a vocação de «apreciar a complexidade e estudá-la» com uma visão de futuro. Uma tarefa que implica superar as polarizações através do discernimento, «aprender a avançar ao lado do outro, a crescer juntos», rejeitar os fantasmas, os inimigos e os preconceitos, os entusiasmos ingénuos e os medos infructuosos, e promover o pensamento crítico e a busca do bem comum.

A contribuição da Espanha é formulada com referência aos santos que cultivaram uma «mística de olhos abertos»: São João da Cruz, com a sua caminhada desde as noites escuras até à luz; Santa Teresa de Ávila, com o percurso do «castelo interior» em direção ao próprio coração, para descobrir como o universo se torna um lar; São Inácio de Loyola, com a sua ênfase no discernimento. Também hoje a eternidade pode impregnar a vida quotidiana, unindo, na busca da santidade, a oração e o compromisso social. 

Na capital, Luís XIV apresentou-se perante o Parlamento como servidor da pessoa humana e defensor da sua dignidade. Recordou que uma sociedade justa se mede pela sua capacidade de proteger a vida na sua maior fragilidade: «desde a sua conceção até ao seu fim natural». Advertiu que a lei perde o seu sentido se se tornar uma mercadoria ou se ignorar aqueles que não têm força para se fazerem ouvir. Defendeu a família e a liberdade de escolher o tipo de educação dos filhos. 

No âmbito eclesial, o encontro no estádio Santiago Bernabéu foi qualificado pelo Papa como um «golo fantástico da Igreja de Madrid». Aí, apresentou um dos seus princípios teológicos fundamentais: a Igreja como uma «família que aprende a arte da polifonia», onde a unidade não é uniformidade, mas sim uma harmonia que valoriza a diversidade de carismas e as relações entre as «pessoas de carne e osso». Elogiou os voluntários, por representarem o «fermento da gratuidade». Numa sociedade tentada pelo lucro, Leão XIV defendeu a dedicação desinteressada como a característica distintiva da «cidade de Deus» que deve impregnar a vida pública.

A etapa catalã centrou-se na via da beleza como meio de evangelização. Na basílica da Sagrada Família, o Papa Leão XIV descreveu o templo de Gaudí como uma «obra em construção» que simboliza a própria vida cristã: um projeto inacabado que requer a cooperação de todos enquanto «pedras vivas». Afirmou que a arte e a beleza são «canais eminentes de evangelização» nesta era da imagem.

Na abadia de Montserrat, a mensagem centrou-se na reconciliação interior. Ao contemplar a Virgem com o Menino, Leão XIV exortou os fiéis a «deporem as armaduras» do julgamento, da crítica e da agressividade. Propôs a «força desarmada e desarmante do amor» como a única capaz de curar as feridas causadas pela injustiça e pela divisão. 

O ponto alto da viagem, devido ao seu caráter profético, foi a visita às Ilhas Canárias. No centro das rotas migratórias, o Papa Leão XIV definiu o arquipélago como um «lugar onde o Ressuscitado se manifesta» através do acolhimento. Foi categórico ao afirmar que «nenhum ser humano é uma ilha» e que o segredo do coração reside no apelo ao encontro.

Perante o drama das embarcações precárias, o sucessor de Pedro, Leão XIV, condenou severamente aqueles que «especulam com o desespero» e transformam o sofrimento alheio num negócio, advertindo-os de que terão de responder perante a justiça divina. Aos migrantes, assegurou-lhes: «A vossa vida não é um resíduo, a vossa dignidade não se dissolveu nas águas».

Uma grande lição das Canárias para a Igreja universal foi o convite a deixar-se evangelizar pelos pequenos e pelos pobres. O Papa pediu aos católicos que a integração não seja apenas uma tarefa social, mas um encontro espiritual em que se reconheça a «misteriosa sabedoria de Deus inscrita na carne» daqueles que sofrem.

Ao longo da sua visita, Leão XIV demonstrou uma predileção especial pelos esquecidos. Perante os reclusos da prisão de Brians 1 (Barcelona) e, posteriormente, nas suas mensagens, insistiu em que «os erros da vida não determinam a identidade» e que o passado não deve condenar o futuro. Nos hospitais e junto dos idosos, propôs algo semelhante a um ensinamento sobre a fragilidade, em que a velhice e a doença nos recordam a nossa dependência mútua e a necessidade de Deus. 

Ao despedir-se no porto de Santa Cruz de Tenerife, e fazendo referência ao coração de Cristo, que é o coração do Evangelho, Leão XIV apelou a que se abrisse a todos «este mar de amor». Reiterou o lema «Levantem o olhar!» precisamente para o Crucificado, que é a fonte do perdão, da reconciliação e da paz.

A visita do Papa Leão XIV incentiva os jovens a procurarem sempre a verdade, rejeitando outros caminhos: «Se vos afasta de Deus, não é verdade!». Desafia-os a serem protagonistas da mudança social como «faísca de uma nova humanidade», capazes de mudar a história com o amor. 


Ramiro Pellitero
Professor da Faculdade de Teologia da Universidade de Navarra

(Publicado em «Religião Confidencial», 17 de junho de 2026)


Levantem o olhar

No passado mês de junho, esse convite percorreu três cidades espanholas, articulando-se em torno de três eixos: beleza, acolhimento e unidade. Em Barcelona, a beleza da Sagrada Família, que Gaudí ergueu como uma oração em pedra, demonstrou que a beleza é mais um caminho para chegar a Deus. Nas Canárias, o acolhimento dirigiu-se ao irmão mais vulnerável, procurando Cristo no olhar e nas mãos dos outros. Em Madrid, a unidade apresentou-se como um sinal de comunhão e um fermento para um mundo reconciliado. Três cidades, três gestos, um único movimento: levantar o olhar.

O Papa Leão XIV exortou-nos a erguermo-nos. São Josemaría tinha-nos indicado, quase cem anos antes, para onde devíamos olhar. E Cristo ressuscitado, no alto da Cruz e a partir do sacrário, continuou a atrair tudo para si.

O legado espiritual da viagem de Leão XIV

A chamada de Leão XIV A formação de pessoas capazes de dialogar, discernir e servir o bem comum encontra um eco especial na missão da Fundação CARF. Há décadas que esta instituição promove a formação de sacerdotes, seminaristas e religiosos de todo o mundo através de bolsas de estudo na Universidade de Navarra e na Pontifícia Universidade da Santa Cruz (Roma).

O objetivo é que regressem às suas dioceses com uma sólida preparação humana, intelectual e espiritual para responder aos desafios pastorais dos seus países. Num contexto marcado pela polarização e pela procura de referências, a formação daqueles que são chamados a servir a Igreja constitui uma contribuição concreta para a cultura do encontro, para o diálogo e para a promoção da dignidade de todas as pessoas, valores que Leão XIV sublinhou repetidamente durante a sua visita apostólica a Espanha.

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