
Em resposta a essa crise, o padre chileno Juan Ignacio Izquierdo Hübner, capelão da escola Tabancura, publicou Novos olhos. O amor é mais forte que a pornografia. (Edições Semillas, 2025), um livro voltado especialmente para jovens e fruto de seus anos de conversas e acompanhamento pastoral. Ele é advogado, teólogo e doutor em Teologia pela Universidade de [nome da instituição omitido]. Universidade de Navarra.
Mas Novos olhos Não se trata apenas de um ensaio sobre os perigos da pornografia: é também uma obra literária. Através de uma estrutura teatral, com personagens como o anjo Lumen e o demônio Grimson, humor, diálogos e um enredo que coloca o leitor diante de um verdadeiro "tribunal noturno", o padre Juan Ignacio tenta abordar um problema complexo com um estilo envolvente e, por vezes, até mesmo humorístico.
Nesta entrevista, ele explica por que acredita que a luta contra a pornografia é também uma busca pela liberdade, pelo amor e pela promoção da humanidade mais genuína.

—Por que você decidiu escrever um livro sobre pornografia? Ao me preparar para a ordenação sacerdotal, compreendi que uma parte importante do meu trabalho consistiria em Conversando com jovens sobre suas dificuldades com celulares, Redes sociais e pornografia. Lembro-me de um padre espanhol nos contando no seminário que havia chegado à escola querendo falar com os alunos sobre a Santíssima Trindade, mas acabou dedicando boa parte das conversas a ajudá-los a usar melhor seus celulares.
Isso me fez perceber que havia uma necessidade pastoral muito específica ali. Decidi estudar o assunto e escrever um livro que pudesse ser realmente útil para um jovem que luta contra a pornografia. Meu sonho era simples: que alguém o terminasse pensando: "Agora tenho mais recursos para sair dessa situação.".
—O que você descobriu conversando com jovens? Devemos dedicar muito mais tempo a eles. Eles precisam de nós mais do que nunca. Os jovens anseiam por afeto, precisam encontrar pessoas de confiança com quem compartilhar seus pensamentos mais íntimos, anseiam por companhia e têm um enorme desejo de amar e ser amados. No entanto, a pornografia oferece gratificação imediata, mas acaba distorcendo justamente o que a pessoa buscava. O resultado é confusão e, às vezes, desânimo.
Descobri também que muitos jovens não se sentem tão à vontade com telas quanto imaginamos. Alguns querem abandonar as redes sociais, recuperar a concentração ou se livrar de hábitos que consideram uma perda de tempo. O problema é que nem sempre têm energia para fazer isso sozinhos. Por isso, precisam de mais ajuda dos adultos.
—Por que o título de Novos olhos? Porque acredito que superar a pornografia não é o fim da história, mas o começo. Quando uma pessoa se acostuma a ver o mundo através da pornografia, acaba perdendo a sensibilidade para muitas coisas belas da realidade.
Por isso, não quis escrever simplesmente um livro "contra a pornografia". Queria falar de algo muito maior: de recuperar a capacidade de ver. De olhar para outra pessoa e descobrir que ela não é um objeto. De olhar para a própria vida e descobrir que ela vale a pena. De olhar para a natureza, a amizade, a arte, a família, a fé. Em suma, de aprender a ver o mundo com novos olhos.
—A pornografia é apenas um problema moral? É um problema humano. Tem consequências para a liberdade, as emoções, a capacidade de formar relacionamentos e a forma como entendemos os outros. Claro que existe uma dimensão moral (entendida como a arte de viver bem), porque estamos falando de como tratamos as pessoas e o que fazemos com a nossa liberdade.
Mas não se trata de reduzir tudo à caricatura da censura ou da proibição; em vez disso, cabe a nós ajudar a pessoa a entender o que ela procura, o que está acontecendo com ela e para onde ela quer levar sua vida para ser feliz.
—Qual o papel do celular nesse problema? Os celulares mudaram radicalmente a situação. Antes, acessar certos conteúdos exigia uma busca ativa. Hoje, eles podem aparecer por acaso no bolso de uma criança. E há outro problema: os celulares não só permitem o acesso a uma infinidade de pornografia, como também podem amplificar a solidão, a comparação, o tédio e a busca constante por estímulos.
Por isso, acredito que o problema não pode ser abordado apenas sob a perspectiva da pornografia. Precisamos nos perguntar que tipo de relação estamos ensinando aos nossos jovens com a tecnologia.
—Na Espanha, o primeiro contato com pornografia ocorre por volta dos nove aos onze anos de idade. O que significa que uma criança possa se deparar com esse conteúdo nessa idade? Isso significa que estamos pedindo a uma criança que processe uma realidade para a qual ela ainda não possui as ferramentas emocionais ou intelectuais necessárias. E em um terço dos casos, o primeiro contato ocorre por acaso. Isso significa que não basta dizer a uma criança "não procure pornografia", porque ela pode se deparar com ela sem procurá-la.
Por isso, a prevenção começa muito antes de surgir um problema. É urgente proteger as crianças e, ao mesmo tempo, educá-las para que reconheçam o que lhes faz mal e peçam ajuda aos pais quando se depararem com algo que as confunda.
—O que os pais devem fazer? Em primeiro lugar, não tenha medo de conversar. Às vezes, os pais evitam essas conversas porque se sentem desconfortáveis. Mas as crianças precisam saber que podem recorrer aos pais justamente quando se sentirem envergonhadas com alguma coisa.
A segunda coisa é estabelecer limites. O amor também sabe dizer não. Dar um smartphone Dar acesso ilimitado à internet para uma criança e esperar que ela consiga lidar com algo que muitos adultos têm dificuldade é pedir demais. Desculpe, mas acho isso cruel.
E a terceira coisa é oferecer alternativas. Não basta remover uma tela: é preciso preencher esse espaço com amizade, esportes, leitura, música, conversa, natureza, família, oração. A liberdade precisa de algo bom para se voltar.
—Como você vê o discurso atual da Igreja sobre essas questões? Sinto-me muito próximo das preocupações que o Papa Leão XIV expressa sobre as novas tecnologias. Ele insistiu que precisamos de uma resposta educativa, ética e responsável, e que a tecnologia deve estar ao serviço da pessoa humana.
Ele também destacou que pais e educadores precisam de redes de colaboração para apoiar os jovens. Portanto, a Igreja está tentando acompanhar as famílias para que elas possam discernir e tomar boas decisões.

—Você sente, de alguma forma, que está seguindo os passos do Papa Leão? Sim, porque compartilho uma convicção fundamental: devemos colocar as pessoas no centro. A tecnologia é uma ferramenta extraordinária, mas deixa de ser ferramenta quando nos substitui. E o Papa Leão XIII falou muito claramente sobre a necessidade de proteger crianças e adolescentes do acesso digital precoce, irrestrito e sem supervisão.
—Então a solução é proibir? A resposta é educar, orientar e, quando necessário, estabelecer limites. Além disso, às vezes será preciso proibir certas coisas em determinadas idades. Mas uma educação baseada apenas em proibições é inadequada, porque queremos formar pessoas capazes de escolher o que é certo mesmo quando ninguém está olhando.
É por isso que gosto tanto da palavra "acompanhamento". Um jovem que luta contra a pornografia não precisa apenas que alguém lhe diga que está fazendo algo errado. Ele precisa de alguém que se sente ao seu lado, o ouça sem se chocar e o ajude a descobrir que pode viver de forma diferente.
—E o que pode fazer alguém que já está preso nesse hábito? A primeira coisa a fazer é não se desesperar. Pelo contrário, anime-se para lutar! A vergonha pode ser uma grande aliada quando se transforma em desespero. Então, peça ajuda para que alguém (idealmente um dos pais) possa acompanhar a criança no desafio de descobrir seus momentos de maior vulnerabilidade, modificar certos hábitos, reduzir as chances de tropeçar e encontrar refúgio na misericórdia de Deus.
—Que lugar Deus ocupa nesse processo? Um lugar central. A vida cristã consiste em descobrir um amor que compensa as nossas fraquezas. Quando uma pessoa descobre que foi criada por Deus, que possui imensa dignidade e que é chamada a amar, a sua perspectiva muda. A castidade, bem compreendida, é um caminho de aprendizado para o amor. E quando se descobre isso, começa-se a questionar algo que interessa a todos: "Como posso amar melhor?".
—Que mensagem você daria a um jovem que sente que não consegue se livrar da pornografia? Eu diria para ele não se identificar com o problema. Você não é "um viciado", nem "um caso perdido". Você é uma pessoa que está passando por dificuldades, como qualquer outra, e que pode pedir ajuda.
Eu também diria para ele não se contentar apenas em sobreviver. Há uma vida muito mais bela do outro lado dessa luta. Quando você começa a reconquistar sua liberdade, descobre que o mundo tem muito mais cores do que você imaginava.
—E que mensagem você daria aos pais? Eles não devem ter medo. As crianças precisam de adultos dispostos a apoiá-las, embora nós, adultos, também não tenhamos todas as respostas. Temos uma tarefa pela frente que não podemos delegar completamente às escolas, às plataformas tecnológicas ou ao governo. Precisamos trabalhar juntos para recuperar o papel educativo das famílias. E precisamos fazer isso com humildade, enquanto continuamos aprendendo.
—O que você gostaria que acontecesse depois que alguém lesse? Novos olhos? Gostaria que o leitor experimentasse uma onda de esperança. Que um jovem pudesse pensar: "Eu posso ser livre". Que um pai pudesse dizer: "Agora sei melhor como conversar com meu filho".
Além disso, todos precisamos entender que esta não é apenas uma batalha contra uma indústria ou uma tela. É uma luta por algo muito mais valioso: nossa capacidade de enxergar os outros como pessoas, de vivenciar relacionamentos genuínos e de amar como realmente somos.
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