
Na nossa caminhada, chegamos ao entardecer, à noite. Desde criança que me sinto compelido - encorajado, talvez fosse melhor - a caminhar com o dia já escuro; e a caminhar, solitário e silencioso, no meio da escuridão sem ser interrompido pela iluminação urbana. Impregnado pela noite, experimenta-se de uma forma diferente o bater da terra, o brilho do estrelas, o aroma de toda a criação.
E que alegria, abandonarmo-nos à noite sem nostalgia, entrar nela, quase em bicos de pés, e pedir-lhe que nos torne participantes do seu mistério! Uma alegria que talvez Rainer Maria Rilke tenha vislumbrado um dia, quando escreveu estes versos no seu Poemas para a noite:
«E de repente percebi que andas comigo e brincas, / Ó tu, noite crescida, e olhei para ti com espanto.... / ...a si, noite elevada, / você não tinha vergonha de me conhecer. O seu hálito / passou por cima de mim. A sua seriedade dilatada, partilhada / com um sorriso, penetrou-me».
Alguns acolhem a noite como um amigo, outros evitam-na, como um inimigo com o qual nunca se pode fazer as pazes.
Quem o acolhe com amizade dispõe o seu espírito para perscrutar o amor virgem escondido na escuridão e no silêncio. Talvez com um certo tremor, como Rilke:
«Se sentisse, ó noite, enquanto o contemplo, como o meu ser recua perante o impulso/ de querer lançar-se confiante nos seus braços/ poderei agarrá-lo de modo a que a minha sobrancelha, arqueando de novo/ salve um tão vasto fluxo de olhar?.
Sei que não encontrarei palavras para cantar a beleza da noite - mesmo que peça ajuda aos poetas; talvez porque as palavras esgotam o seu serviço no esforço de nos tentarmos entender; e a noite é uma terra de coalhada para o diálogo humano oculto da alma com o espírito, que abre e prepara a comunicação inefável - e não apenas o diálogo - entre o homem e Deus, o seu criador.
A noite é uma criatura de Deus e, como todas as criaturas, uma dádiva de Deus ao homem. Sem a sua escuridão, nem sequer o sol brilharia. Sem o repouso que ela nos oferece, o nosso caminhar sobre a terra reduzir-se-ia a uma mera loucura; toda a nossa pessoa perderia a direção, a orientação, e não apenas o sistema nervoso. O silêncio e a escuridão da noite abrem ao homem horizontes ilimitados, mais longínquos e impenetráveis do que os que se escondem no mar revolto e que mal emergem à beira das cristas das ondas do oceano.

E a noite guarda um silêncio e uma escuridão para a juventude; uma escuridão em silêncio para a maturidade; um silêncio em escuridão radiante para a plenitude da vida. A noite enriquece o nosso olhar; convida-nos a penetrar em recantos inexplorados, e os olhos, que não suportam olhar para o sol, abrem caminho olhando para as estrelas, e chegam a desvendar o mistério que a noite esconde: o mistério de o homem não ter outro horizonte senão a noite. Vida eterna, O céu.
Para aqueles que a esperam como inimiga, a alma da noite esgota-se na escuridão e no vazio; e a sua imagem parece uma antecipação do nada.
A noite aparece então, e aparece, geminada com o silêncio e a escuridão. Tragicamente geminados. Como se a escuridão não fosse mais do que escuridão e o silêncio escondesse a ameaça do vazio e da opressão. Juan Ramón Jiménez escreveu: "Se va la noche, negro toro/ -plena carne de luto, de espanto y de misterio-, / que ha bramado terrible, inmensamente, / al temor sudoroso de todos los caídos".
Perante um tal inimigo, não há outro recurso senão tentar aniquilá-lo ou fugir dele. A noite é aniquilada enchendo-a artificialmente de barulho e de falsa luz, na expetativa do amanhecer. O silêncio murmurado e candoroso transforma-se em gritos ansiosos, disfarçados em sorrisos mais ou menos mascarados. E a escuridão radiante do universo a céu aberto transforma-se em escuridão de túnel que exclui as estrelas do nosso olhar.
A noite adquire uma tonalidade diferente quando o seu mistério se combina com o da doença. Alguns doentes aguardam a sua chegada com ansiedade, receando um duplo pavor: que o sono não chegue e que a angústia transforme as horas que faltam até ao amanhecer na figura da morte, da própria morte; ou que, se o sono finalmente os vencer, se torne no último sono terrestre.
À noite, o homem tem consciência, sem pudor e sem vergonha, da sua penúria, da sua indigência e até da sua miséria. Já descobriu, sem se maravilhar, que todo o santo tem algo - ou muito - de miserável; e que todo o miserável está em condições de ter algo - ou muito - de santo. Provou a confirmação daquilo que, em certa medida, já tinha previsto: que o homem não se reforma: aqueles que ficam em terra, quando chega a altura de fazer os seus barcos para a mar, A melhor altura para pescar é sempre à noite. A melhor pesca é sempre à noite.
Talvez se sinta mais indefeso perante tantos medos que o assaltam nos momentos mais inoportunos. Talvez. E, no entanto, vale a pena correr o risco para que, finalmente, a noite se torne luz, como anuncia profeticamente o salmista: «e a noite será a minha luz nas minhas delícias / porque a noite, como o dia, será iluminada».»; São João da Cruz acrescentou: «Ó noite que guiastes, / Ó noite mais suave que a aurora; / Ó noite que unistes / Amado com amado, / Amado no Amado transformado».

De certa forma, também o vislumbrou Gibran, que, em O Profeta, escreveu:
«Não posso ensinar-lhe como rezam os mares, as montanhas, as florestas, / Você pode descobrir como eles rezam. rezar No fundo do seu coração, / Empreste o seu ouvido nas noites tranquilas, e ouvirá murmurar, / Nosso Deus, asas de nós mesmos, desejamos com o seu Vontade. (...) / Nada podemos pedir-Vos; conheceis a nossa miséria antes de ela nascer; / A nossa necessidade é Vós; ao dar-nos mais de Vós, dais-nos tudo».
Deus deu-nos a si próprio no Menino Jesus que cantámos com os nossos lábios, adorámos com a nossa inteligência, recebemos no nosso coração, com os pastores, com os magos, com os Maria A sua luz iluminou a escuridão da nossa noite?
Ernesto Juliá, (ernesto.julia@gmail.com) | Anteriormente publicado em Confidencialidade da Religião.
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