
O 1 de janeiro, a Igreja Católica celebra a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. Não se trata de um encerramento piedoso do tempo natalício nem de um acréscimo devocional ao calendário litúrgico. É uma afirmação doutrinária de primeira ordem: em Maria está em jogo a verdade de quem é Jesus Cristo. Para um católico do ano 2026, esta festa continua a ser uma referência decisiva para compreender a fé, a dignidade da pessoa e o sentido cristão do tempo.
A celebração de Maria como Mãe de Deus tem as suas raízes nos primeiros séculos do cristianismo. Não surge de uma devoção popular exuberante, mas sim de uma controversia teológica central: quem é realmente Jesus de Nazaré. No século V, a discussão em torno de Nestório — que se recusava a chamar Maria de Theotokos (Mãe de Deus) e preferia o título Christotokos (Mãe de Cristo) – obrigou a Igreja a precisar a sua fé.
O Concílio de Éfeso (431) declarou que Maria é verdadeiramente a Mãe de Deus porque o Filho que nasce dela é uma única Pessoa, divina, que assume plenamente a natureza humana. Não se trata de afirmar que Maria precede Deus ou é a origem da divindade, mas sim de afirmar que O tema do nascimento é Deus feito homem.. Separar a A maternidade de Maria da divindade de Cristo implica fragmentar o mistério da Encarnação.
Desde então, a maternidade divina tornou-se uma pedra angular da fé cristã. A liturgia romana fixou esta celebração no dia 1 de janeiro, oito dias após o Natal, seguindo a antiga tradição bíblica da oitava, para sublinhar que o Menino nascido em Belém é o próprio Senhor confessado pela Igreja.
Celebrar Maria como Mãe de Deus é, acima de tudo, uma confissão cristológica. A Igreja não centra o seu olhar em Maria para isolá-la, mas para proteger o núcleo da fé: Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Maria não é um acréscimo, mas o lugar concreto onde Deus entra na história.
A maternidade de Maria implica que Deus assumiu uma genealogia, um corpo, um tempo. Ele não se encarna de forma simbólica ou aparente. Nela, Deus aceita depender, crescer, ser cuidado. Por isso, esta solenidade tem consequências profundas para a antropologia cristã: a carne, a história e a maternidade não são realidades secundárias, mas espaços onde Deus atua.
Nesta perspectiva, Maria não é uma figura idealizada ou distante. Ela é uma mulher real, inserida num contexto histórico concreto, que responde livremente à iniciativa de Deus. A sua fé não elimina a escuridão nem a incerteza, mas atravessa-as. O Evangelho do dia apresenta-a “guardando todas estas coisas e meditando-as no seu coração”: uma fé ponderada, não ingénua; silenciosa, mas firme.
O facto de esta solenidade ser celebrada no primeiro dia do ano não é por acaso. A Igreja propõe iniciar o tempo civil a partir de uma chave teológica: o tempo faz sentido porque Deus entrou nele. Para o católico de 2026, imerso numa cultura acelerada, fragmentada e marcada pela incerteza, esta afirmação é especialmente atual.
Além disso, desde 1968, o dia 1º de janeiro está associado ao Dia Mundial da Paz. Não como um slogan, mas como uma consequência lógica: se Deus assumiu a condição humana, toda a vida humana tem uma dignidade inviolável. Maria, como Mãe de Deus, torna-se também uma referência para uma visão cristã da paz, entendida não apenas como ausência de guerra, mas como ordem justa, reconciliação e cuidado dos mais vulneráveis.
Num contexto global marcado por conflitos armados, tensões culturais e crises de sentido, esta solenidade recorda que a paz não se constrói apenas com estruturas, mas com uma visão correta sobre o ser humano. A maternidade de Maria afirma que ninguém é descartável e que a história não está fechada ao sentido.
Para o crente contemporâneo, a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, não é uma celebração arqueológica. Ela interpela diretamente a vida cristã. Maria aparece como modelo de fé adulta, capaz de integrar razão, liberdade e obediência. A sua maternidade não é passiva: implica responsabilidade, risco e perseverança.
São Josemaria Escrivá insistia que recorrer a Maria não é uma evasão sentimental, mas uma escola de vida cristã concreta. Nela aprendemos a acolher a vontade de Deus no quotidiano, a viver a fé sem ostentação e a manter a esperança quando nem tudo é compreendido.
Neste ponto, o trabalho de instituições como a Fundação CARF adquire especial relevância. Formar sacerdotes e seminaristas para uma Igreja fiel à verdade da Encarnação implica transmitir uma teologia sólida, enraizada na tradição e capaz de dialogar com o mundo atual. A maternidade divina de Maria não é um tema marginal, mas uma chave para uma formação integral: doutrinária, espiritual e pastoral.
A Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, coloca o cristão, no início do ano, diante de uma verdade decisiva: Deus não é uma ideia nem uma força abstrata, mas alguém que desejou ter uma mãe. A partir daí, tudo o mais se ordena: a fé, a moral, a vida social e a esperança.
Celebrá-la em 2026 significa reafirmar que a fé cristã continua a ter algo concreto a dizer sobre a realidade, o tempo e a pessoa. Maria não ofusca Cristo; ela o mostra na sua verdade mais radical. E por isso, começar o ano sob a sua invocação não é mais um gesto piedoso, mas uma tomada de posição: confiar que a história, mesmo com as suas sombras, continua aberta a Deus.
Índice