{"id":228252,"date":"2026-02-26T02:00:00","date_gmt":"2026-02-26T01:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/fundacioncarf.org\/?p=228252"},"modified":"2026-02-11T18:37:35","modified_gmt":"2026-02-11T17:37:35","slug":"impresiones-anochecer-silencio-interior-dios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fundacioncarf.org\/pt\/impresiones-anochecer-silencio-interior-dios\/","title":{"rendered":"Impress\u00f5es do anoitecer: sil\u00eancio interior e encontro com Deus"},"content":{"rendered":"

Na nossa caminhada, chegamos ao entardecer, \u00e0 noite. Desde crian\u00e7a que me sinto compelido - encorajado, talvez fosse melhor - a caminhar com o dia j\u00e1 escuro; e a caminhar, solit\u00e1rio e silencioso, no meio da escurid\u00e3o sem ser interrompido pela ilumina\u00e7\u00e3o urbana. Impregnado pela noite, experimenta-se de uma forma diferente o bater da terra, o brilho do estrelas<\/a>, o aroma de toda a cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n

Anoitecer, sil\u00eancio e contempla\u00e7\u00e3o po\u00e9tica<\/h2>\n\n\n\n

E que alegria, abandonarmo-nos \u00e0 noite sem nostalgia, entrar nela, quase em bicos de p\u00e9s, e pedir-lhe que nos torne participantes do seu mist\u00e9rio! Uma alegria que talvez Rainer Maria Rilke tenha vislumbrado um dia, quando escreveu estes versos no seu Poemas para a noite<\/em>: <\/p>\n\n\n\n

\u00abE de repente percebi que andas comigo e brincas, \/ \u00d3 tu, noite crescida, e olhei para ti com espanto.... \/ <\/strong> ...a si, noite elevada, \/<\/strong> voc\u00ea n\u00e3o tinha vergonha de me conhecer. O seu h\u00e1lito \/ <\/strong>passou por cima de mim. A sua seriedade dilatada, partilhada \/ <\/strong>com um sorriso, penetrou-me\u00bb.<\/strong><\/p>\n\n\n\n

Sil\u00eancio interior e atitude em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 noite<\/h3>\n\n\n\n

Alguns acolhem a noite como um amigo, outros evitam-na, como um inimigo com o qual nunca se pode fazer as pazes.<\/p>\n\n\n\n

Quem o acolhe com amizade disp\u00f5e o seu esp\u00edrito para perscrutar o amor virgem escondido na escurid\u00e3o e no sil\u00eancio. Talvez com um certo tremor, como Rilke: <\/p>\n\n\n\n

\n

\u00abSe sentisse, \u00f3 noite, enquanto o contemplo, como o meu ser recua perante o impulso\/ de querer lan\u00e7ar-se confiante nos seus bra\u00e7os\/ poderei agarr\u00e1-lo de modo a que a minha sobrancelha, arqueando de novo\/ salve um t\u00e3o vasto fluxo de olhar?.<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n

Sei que n\u00e3o encontrarei palavras para cantar a beleza da noite - mesmo que pe\u00e7a ajuda aos poetas; talvez porque as palavras esgotam o seu servi\u00e7o no esfor\u00e7o de nos tentarmos entender; e a noite \u00e9 uma terra de coalhada para o di\u00e1logo humano oculto da alma com o esp\u00edrito, que abre e prepara a comunica\u00e7\u00e3o inef\u00e1vel - e n\u00e3o apenas o di\u00e1logo - entre o homem e Deus, o seu criador.<\/p>\n\n\n\n

A noite \u00e9 uma criatura de Deus e, como todas as criaturas, uma d\u00e1diva de Deus ao homem. Sem a sua escurid\u00e3o, nem sequer o sol brilharia. Sem o repouso que ela nos oferece, o nosso caminhar sobre a terra reduzir-se-ia a uma mera loucura; toda a nossa pessoa perderia a dire\u00e7\u00e3o, a orienta\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o apenas o sistema nervoso. O sil\u00eancio e a escurid\u00e3o da noite abrem ao homem horizontes ilimitados, mais long\u00ednquos e impenetr\u00e1veis do que os que se escondem no mar revolto e que mal emergem \u00e0 beira das cristas das ondas do oceano.<\/p>\n\n\n\n

\"\"<\/figure>\n\n\n\n

A noite mant\u00e9m o sil\u00eancio<\/h2>\n\n\n\n

E a noite guarda um sil\u00eancio<\/a> e uma escurid\u00e3o para a juventude; uma escurid\u00e3o em sil\u00eancio para a maturidade; um sil\u00eancio em escurid\u00e3o radiante para a plenitude da vida. A noite enriquece o nosso olhar; convida-nos a penetrar em recantos inexplorados, e os olhos, que n\u00e3o suportam olhar para o sol, abrem caminho olhando para as estrelas, e chegam a desvendar o mist\u00e9rio que a noite esconde: o mist\u00e9rio de o homem n\u00e3o ter outro horizonte sen\u00e3o a noite. Vida eterna<\/a>, O c\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n

Para aqueles que a esperam como inimiga, a alma da noite esgota-se na escurid\u00e3o e no vazio; e a sua imagem parece uma antecipa\u00e7\u00e3o do nada.<\/p>\n\n\n\n

Sil\u00eancio e escurid\u00e3o, geminados<\/h3>\n\n\n\n

A noite aparece ent\u00e3o, e aparece, geminada com o sil\u00eancio e a escurid\u00e3o. Tragicamente geminados. Como se a escurid\u00e3o n\u00e3o fosse mais do que escurid\u00e3o e o sil\u00eancio escondesse a amea\u00e7a do vazio e da opress\u00e3o. Juan Ram\u00f3n Jim\u00e9nez escreveu: \"Se va la noche, negro toro\/ -plena carne de luto, de espanto y de misterio-, \/ que ha bramado terrible, inmensamente, \/ al temor sudoroso de todos los ca\u00eddos\".<\/p>\n\n\n\n

Perante um tal inimigo, n\u00e3o h\u00e1 outro recurso sen\u00e3o tentar aniquil\u00e1-lo ou fugir dele. A noite \u00e9 aniquilada enchendo-a artificialmente de barulho e de falsa luz, na expetativa do amanhecer. O sil\u00eancio murmurado e candoroso transforma-se em gritos ansiosos, disfar\u00e7ados em sorrisos mais ou menos mascarados. E a escurid\u00e3o radiante do universo a c\u00e9u aberto transforma-se em escurid\u00e3o de t\u00fanel que exclui as estrelas do nosso olhar.<\/p>\n\n\n\n

O mist\u00e9rio da doen\u00e7a<\/h4>\n\n\n\n

A noite adquire uma tonalidade diferente quando o seu mist\u00e9rio se combina com o da doen\u00e7a. Alguns doentes aguardam a sua chegada com ansiedade, receando um duplo pavor: que o sono n\u00e3o chegue e que a ang\u00fastia transforme as horas que faltam at\u00e9 ao amanhecer na figura da morte, da pr\u00f3pria morte; ou que, se o sono finalmente os vencer, se torne no \u00faltimo sono terrestre.<\/p>\n\n\n\n

\u00c0 noite, o homem<\/a> tem consci\u00eancia, sem pudor e sem vergonha, da sua pen\u00faria, da sua indig\u00eancia e at\u00e9 da sua mis\u00e9ria. J\u00e1 descobriu, sem se maravilhar, que todo o santo tem algo - ou muito - de miser\u00e1vel; e que todo o miser\u00e1vel est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de ter algo - ou muito - de santo<\/a>. Provou a confirma\u00e7\u00e3o daquilo que, em certa medida, j\u00e1 tinha previsto: que o homem n\u00e3o se reforma: aqueles que ficam em terra, quando chega a altura de fazer os seus barcos para a mar<\/a>, A melhor altura para pescar \u00e9 sempre \u00e0 noite. A melhor pesca \u00e9 sempre \u00e0 noite.<\/p>\n\n\n\n

A noite ser\u00e1 leve<\/h3>\n\n\n\n

Talvez se sinta mais indefeso perante tantos medos que o assaltam nos momentos mais inoportunos. Talvez. E, no entanto, vale a pena correr o risco para que, finalmente, a noite se torne luz, como anuncia profeticamente o salmista: \u00abe a noite ser\u00e1 a minha luz<\/a> nas minhas del\u00edcias \/ porque a noite, como o dia, ser\u00e1 iluminada\u00bb.\u00bb<\/strong>; S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz acrescentou: \u00ab\u00d3 noite que guiastes, \/ \u00d3 noite mais suave que a aurora; \/ \u00d3 noite que unistes \/ Amado com amado, \/ Amado no Amado transformado\u00bb.<\/strong><\/p>\n\n\n\n

\"anochecer<\/figure>\n\n\n\n

De certa forma, tamb\u00e9m o vislumbrou Gibran, que, em O Profeta<\/em>, escreveu: <\/p>\n\n\n\n

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\u00abN\u00e3o posso ensinar-lhe como rezam os mares, as montanhas, as florestas, \/ Voc\u00ea pode descobrir como eles rezam. rezar<\/a> No fundo do seu cora\u00e7\u00e3o, \/ Empreste o seu ouvido nas noites tranquilas, e ouvir\u00e1 murmurar, \/ Nosso Deus, asas de n\u00f3s mesmos, desejamos com o seu Vontade<\/a>. (...) \/ Nada podemos pedir-Vos; conheceis a nossa mis\u00e9ria antes de ela nascer; \/ A nossa necessidade \u00e9 V\u00f3s; ao dar-nos mais de V\u00f3s, dais-nos tudo\u00bb.\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<\/blockquote>\n\n\n\n

Deus deu-nos a si pr\u00f3prio no Menino Jesus<\/a> que cant\u00e1mos com os nossos l\u00e1bios, ador\u00e1mos com a nossa intelig\u00eancia, recebemos no nosso cora\u00e7\u00e3o, com os pastores, com os magos, com os Maria<\/a> A sua luz iluminou a escurid\u00e3o da nossa noite?\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<\/p>\n\n\n\n


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Ernesto Juli\u00e1, (ernesto.julia@gmail.com) | Anteriormente publicado em\u00a0Confidencialidade da Religi\u00e3o<\/strong><\/a>.<\/p>\n\n\n\n


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\u00cdndice<\/strong><\/p>