{"id":183179,"date":"2022-02-07T08:00:42","date_gmt":"2022-02-07T07:00:42","guid":{"rendered":"https:\/\/staging.fundacioncarf.org\/dino-buzzati-buscando-a-dios-en-el-desierto-interior\/"},"modified":"2024-11-20T14:08:27","modified_gmt":"2024-11-20T13:08:27","slug":"dino-buzzati-buscando-a-dios-en-el-desierto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fundacioncarf.org\/pt\/dino-buzzati-buscando-a-dios-en-el-desierto\/","title":{"rendered":"Dino Buzzati, em busca de Deus no deserto interior"},"content":{"rendered":"
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Dino Buzzati<\/span><\/a><\/h3>\n<\/div>\n
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Em 28 de Janeiro de 1972, h\u00e1 50 anos, Dino Buzzati morreu na cl\u00ednica La Madonnina, em Mil\u00e3o. Um dos principais nomes do jornalismo italiano, ligado ao Corriere della Sera.<\/p>\n

Homem multifacetado, cultivador da arte, da m\u00fasica e das artes. Literatura italiana<\/a>Dino Buzzati ser\u00e1 sempre recordado pelo seu romance O Deserto do Tatar<\/strong>. Uma hist\u00f3ria com um alto valor simb\u00f3lico, um exemplo da chamada literatura de espera<\/strong>com paralelos a Kafka's The Castle e Beckett's Waiting for Godot.<\/p>\n

O Deserto do Tatar<\/h2>\n

O seu protagonista \u00e9 o oficial Giovanni Drogo, guardi\u00e3o de uma fortaleza sobre a qual paira uma amea\u00e7a, a dos T\u00e1rtaros, obsessivamente presente mas que nunca se materializa a tempo. O resultado \u00e9 ang\u00fastia, tristeza e resigna\u00e7\u00e3o, com a qual a vida \u00e9 paralisada por um acontecimento que nunca acontece, e que, se acontecesse, apanharia aqueles que esperam sem o tom vital para reagir.<\/p>\n

Esta \u00e9 a cr\u00f3nica de uma espera sem esperan\u00e7a, em que a seguran\u00e7a \u00e9 mais valiosa do que a liberdade, porque a liberdade implica risco, embora o medo evite tom\u00e1-la. A vida torna-se uma frustra\u00e7\u00e3o, um deserto interior sem expectativas.<\/strong> Como escreveu Borges, o her\u00f3i da hist\u00f3ria espera multid\u00f5es, embora a realidade seja que o deserto est\u00e1 vazio. Poder-se-ia acrescentar que \u00e9 o romance da procrastina\u00e7\u00e3o, um dos maiores perigos da exist\u00eancia humana.<\/strong>Implica uma ren\u00fancia \u00e0 vida quotidiana e de fazer o que precisa de ser feito em qualquer momento.<\/p>\n

Dino Buzzati n\u00e3o partilhou o m\u00e9todo de procrastina\u00e7\u00e3o. Ele era um homem com um grande sentido de dever, de trabalho tranquilo e apaixonado, mas ao mesmo tempo era muito emotivo, pois quando crian\u00e7a a sua leitura o tinha conduzido pelos caminhos da fantasia e da imagina\u00e7\u00e3o. Ele tinha recebido uma educa\u00e7\u00e3o crist\u00e3, mas a chama da f\u00e9 tinha-se extinguido gradualmente.<\/p>\n

O poeta Eugenio Montale, contudo, escreveu um artigo de obitu\u00e1rio no qual afirmava que Buzzati era um naturaliter christiano. Ele afirmou n\u00e3o acreditar, mas a sua vida est\u00e1 cheia de refer\u00eancias a uma busca de Deus<\/strong>. Ele chegou ao ponto de escrever um poema em que reza a um Deus em quem n\u00e3o acredita, a quem chama, mas que, apesar de tudo, \"pela terr\u00edvel for\u00e7a da minha alma, vir\u00e1\". No entanto, o problema de Deus, segundo o escritor, reside na cren\u00e7a na vida ap\u00f3s a morte.<\/p>\n

Quem n\u00e3o acredita no al\u00e9m, n\u00e3o pode acreditar em Deus.<\/strong> Dino Buzzati insistiu que ele n\u00e3o era um crente, mas como um bom jornalista, ele fez perguntas incisivas \u00e0queles que acreditavam. Este foi o caso da Irm\u00e3 Beniamina, uma freira que cuidou dele no \u00faltimo m\u00eas da sua vida na cl\u00ednica de Mil\u00e3o onde ele tinha sido internado por cancro pancre\u00e1tico.<\/p>\n

Ele tamb\u00e9m tinha um livro na sua mesa de cabeceira, Pascal's Pens\u00e9es, porque ele se identificava com a busca do Deus oculto do qual o fil\u00f3sofo franc\u00eas falava. Tal como Pascal, Buzzati rejeitou o racionalismo cartesiano, com a sua f\u00e9 cega na raz\u00e3o e no intelecto, o que leva, quer se goste quer n\u00e3o, a colocar Deus entre par\u00eanteses.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n

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\"Dino<\/span><\/p>\n<\/div>\n

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O romance de Dino Buzzati foi adaptado ao cinema em 1976 por Valerio Zurlini.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n

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\u00c0 procura de Deus<\/h2>\n

Aquele que procura Deus \u00e9 algu\u00e9m que percebe a fragilidade da humanidade.<\/strong>a \"palheta pensante\" referida por Pascal. Esta pesquisa reflecte a necessidade de um criador. Numa confid\u00eancia a um amigo jornalista, Buzzati salientou que, sem o seu criador, \"o homem \u00e9 um \u00e1tomo perdido no turbilh\u00e3o do deserto do universo\".<\/p>\n

Ele tamb\u00e9m disse que \"o desejo de Deus no homem enfraqueceu e surgiu um vazio terr\u00edvel que \u00e9 a trag\u00e9dia do mundo moderno\". No entanto, na cl\u00ednica, o escritor n\u00e3o quis pedir um padre<\/a>Ele considerou que era uma solu\u00e7\u00e3o f\u00e1cil libertar o peso das falhas da sua vida? Certamente, Dino Buzzatti n\u00e3o tinha levado em conta as palavras do profeta Isa\u00edas, muitas vezes citadas por Pascal, aquelas que dizem que \"Embora os seus pecados sejam t\u00e3o escarlate, eles ser\u00e3o t\u00e3o brancos como a neve\".<\/em> (Is 1:18).<\/p>\n

No entanto, Dino Buzzati beijou o crucifixo \u00e0 volta do pesco\u00e7o da Irm\u00e3 Beniamina nos seus \u00faltimos momentos.<\/strong>No mesmo dia, quando uma invulgar queda de neve caiu sobre Mil\u00e3o, ele pediu \u00e0 sua esposa para o rapar, pois queria estar apresent\u00e1vel para o encontro mais importante da sua vida.<\/p>\n

Um bom amigo de Buzzati, o padre David Maria Turoldo, escreveu um poema em que se refere a um irm\u00e3o ateu que vai em busca de um Deus que n\u00e3o sabe como lhe dar, mas que se oferece para atravessar juntos o deserto. Vale a pena lembrar que o deserto tem a qualidade que as pegadas s\u00e3o frequentemente marcadas na areia.<\/p>\n

Numa carta confidencial de Agosto de 1971 a Gioacchino Muccin, Bispo de Belluno, cidade natal de Buzzati, o escritor disse que tinha batido \u00e0 porta de Deus e que a porta se tinha aberto, embora ele tamb\u00e9m tenha acrescentado que isto n\u00e3o devia ser contado durante dez anos.<\/p>\n

Alguns cr\u00edticos das obras de Dino Buzzati insistem que \u00e9 in\u00fatil procurar nelas um suposto cristianismo. Eles v\u00eaem o espiritualismo, mas n\u00e3o a espiritualidade ou transcend\u00eancia. Por outro lado, Eu fico com o Buzzati moribundo que beija o Crucificado. Nesses momentos, s\u00f3 se beija o que realmente se ama.<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n

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Com a colabora\u00e7\u00e3o de:<\/p>\n

Antonio R. Rubio Plo<\/strong>
\nLicenciado em Hist\u00f3ria e Direito
\nEscritor e analista internacional
\n@blogculturayfe \/ @arubioplo<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n

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Passaram 50 anos desde a morte do jornalista italiano Dino Buzzati, autor do aclamado romance O Deserto dos T\u00e1rtaros, \"uma cr\u00f3nica de uma espera sem esperan\u00e7a\".<\/p>","protected":false},"author":4,"featured_media":183703,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"give_campaign_id":0,"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-183179","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fundacioncarf.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/183179","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fundacioncarf.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fundacioncarf.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fundacioncarf.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fundacioncarf.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=183179"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/fundacioncarf.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/183179\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":200439,"href":"https:\/\/fundacioncarf.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/183179\/revisions\/200439"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fundacioncarf.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/183703"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fundacioncarf.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=183179"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fundacioncarf.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=183179"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fundacioncarf.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=183179"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}